quem somos

CORISCO

Corisco é o Coletivo de Pesquisa e Ação em Contextos de Risco, grupo de pesquisa criado em 2016 e desde então liderado pela professora Luciana de Oliveira (DCS e PPGCOM/UFMG). Registrado no Diretório de Grupos de Pesquisa do CNPq, atualmente é co-liderado pela Capitã Pedrina de Lourdes Santos.

Congrega estudantes de graduação, mestrado, doutorado e pessoas interessadas nas relações entre saberes tradicionais e diálogos interepistêmicos por meio de estudos com imagens e em interação com intelectuais indígenas, quilombolas, afrodescendentes e seus coletivos e territórios.

Por justiça epistêmica

Nascemos do estrondo e da luz negra e por isso nosso nome não surge como uma etiqueta acadêmica, mas como um posicionamento ético, político, epistêmico e estético diante das feridas abertas pela modernidade-colonialidade. Escolhemos este nome porque ele porta em si a eletricidade da ruptura e a velocidade da transformação.

Este nome sustenta-se numa proposta de trabalho na qual a pesquisa é um ato de insurreição, desobediência e inovatividade. Reconhecemos que o projeto colonial de expropriação de terras e usurpação do trabalho, tentou ocupar as mentes e destruir as línguas, promovendo genocídio-epistemicídio-cosmocídio. Nós nos colocamos na contramão desse modelo, em aliança com os povos afropindorâmicos contra-coloniais, e propomos a escuta ativa e de amplificação das experiências que foram empurradas para as margens da história. Não falamos sobre um outro, estabelecemos uma poética relacional onde o conhecimento é um território de partilha e dignidade. Não falamos sobre desvelar uma verdade, mas em nos banhar da luz negra que emerge de corpos e territórios brilhantes em si mesmos.

Se de um lado, o esquecimento é uma tecnologia de poder, por outro, contra o memoricídio, o nosso nome evoca nossa prática que, num lampejo, revela as ruínas do sistema e as glórias de corpos coletivos e modos de vida orgânicos que tentaram enterrar. Justificar nosso nome é evocar a memória daqueles e daquelas que, sob o risco da própria existência, mantiveram acesos os fogos da resistência. Caminhamos no rastro desse legado e buscamos nutrição nesta chama. Nossa ação busca restaurar o fio da história, garantindo que o passado seja ferramenta de luta no presente. Desta forma, habitamos os contextos de risco para transformá-los em contextos de justiça e potência, correndo risco junto: co-risco para a co-criação.

O nome Corisco vem da recusa dos termos que nos reduzem ou que nos padronizam. Acreditamos na equidade de direitos e em diálogos interepistêmicos. Nos imantamos nos fóruns cosmopolíticos criados a partir das linguagens e formas dos mundos com os quais interagimos. Assim como nosso nome, nossa pesquisa não começa nem termina no papel; ela se materializa no impacto coletivo e na proteção da vida. Ela demanda ação e encontro. Ela é corpo-a-corpo no território e na universidade.

Nosso nome é uma homenagem às forças da natureza e às figuras históricas que encarnaram a rapidez e a força da mudança. É a evocação de uma justiça que não espera a autorização do Opressor para se manifestar; assim como o fenômeno que risca a terra lá de cima, somos passageiros na forma, mas reivindicamos permanência no impacto que causamos na paisagem.

Sob as veredas do trovão: coletivo cangaceiro

Nomear-nos Corisco é também um ato de retomada. No imaginário colonial, o cangaço foi lido pelas lentes da criminalização e do atraso. Para nós, ele é um arquivo vivo de resistência, uma política da rebeldia que se recusa a aceitar a geografia da fome e do silenciamento. Se o risco é a nossa condição de pesquisa, o movimento do Cangaço é o nosso mestre na arte de caminhar sobre o fogo.

 Assim como os grupos que cruzavam a caatinga, nossa pesquisa não é estática. Aprendemos com a estratégia de quem calça a sandália ao contrário: no campo das ideias, muitas vezes é preciso confundir os rastros para escapar das capturas do pensamento eurocêntrico, é preciso nesta fuga vislumbrar inspirações anticoloniais. É preciso andar com os sapatos calçados para trás. Desta forma, buscar inspiração no Cangaço é assumir que o conhecimento produzido no Corisco tem corpo, tem solo e tem urgência. Não pesquisamos sobre o risco, mas a partir do e com o risco, transformando a vulnerabilidade imposta pelo sempre-já do Estado-Capital em uma potência, em contragolpe. Nossa ação é movida por essa faísca que desestabiliza as cercas, sejam elas as do latifúndio ou as do cânone acadêmico. Somos o risco. 

Ao reivindicarmos a herança dessa memória, em si um gesto arriscado, afirmamos que o risco é o território onde se faz a ciência. Não fugimos das zonas de conflito, mas nelas forjamos nossas ferramentas de trabalho e luta, e nesta entendemos que na relação com povos postos à margem constituímos um grande Kilombo-Aldeia. Tal qual no Cangaço, a batalha é coletiva! No bando, a sobrevivência era um pacto como para nós a pesquisa é uma partilha de saberes que visa o bem comum e a derrubada das cercas da exclusão. 

O nome Corisco vem do intento de propor uma ciência que não tem medo de curar à terra. Somos um coletivo que entende que a verdadeira justiça opera em várias arenas e nasce da capacidade de ser, ao mesmo tempo, luz negra que ilumina a injustiça e fogo que incendeia a passividade.

Somos faíscas que criam, forjadas da ancestralidade de Xangô, Nzazi e Overa

Para nós, o conhecimento não é dinâmico, luz negra que nasce do impacto de vidas que em meio ao risco fazem plantações cognitivas. Em cosmologias ancestrais originárias e no universo Iorubá e Bantu, inicialmente mas não só, encontramos inspiração para nosso nome e escolhas políticas-estéticas-epistêmicas. Entendemos que a pesquisa em contextos de risco exige mais do que observação, exige a faísca, o atrito necessário para incendiar o que está posto, para destruir o mundo como o conhecemos.

Nossa metodologia reconhece que a relação põe em movimento de conexão pedras de fogo e produz saberes. Assim como o encontro das pedras de raio produz a faísca que inicia a combustão, nossa atuação se dá na fricção entre a teoria e cotidiano, arquivo e terreiro, tekoha e cidade, texto e oralidade. É nesse choque que a linguagem deixa de ser apenas descrição para se tornar justiça.

Nosso nome pede a Xangô que nos empreste a balança e o machado duplo (oxê) e com ele o rigor da justiça que não perdoa a opressão e a autoridade de quem corta o silêncio colonial. A Nzazi pedimos o movimento do relâmpago e a comunicação intermundana, uma força que rasga o paradigma colonial e desdobra-se em pesquisa-vida, uma força que desce à terra para transformar a paisagem e a eletricidade que percorre os corpos em luta. Com Overa, o poderoso brilho do raio na experiência Kaiowa de transitar pelas três terras – a de baixo, a de cima e a do meio, vamos aprendendo a caminhar implacavelmente  “Hyapu Vera Rupi Koche Aju”, buscando fazer falar nossa palavra-espírito, nosso hálito, as forças que nos coabitam e que se reconhece no encontro com os parentes e contemporâneos de tantos mundos e tantos tempos.

Reclamamos essa ancestralidade para dizer que nossas pesquisas são faíscas. Elas não buscam a paz das bibliotecas silenciosas, o regozijo individualista do gabinete ou os encastelamentos universitários, mas o estalo do fogo que abre novos caminhos. Em nosso nome trazemos a ação que realizamos, buscamos a poética do encontro que queima as certezas coloniais, a opacidade que cria questionamentos e substantiva novos mundos. Somos um coletivo que sustenta a chama desde o nome porque sabe que, onde há risco, a luz deve ser conquista, e a justiça, um relâmpago que corta a noite.

Nossa Missão

O grupo reúne gente interessada no trabalho de pesquisa e ação junto com pessoas e grupos marginalizados (ou intelectuais oriundas desses mundos) que são acossados pelas mais diversas formas de exclusão.

Interessam-nos os diagnósticos das operações de colonialidade do saber-poder-olhar bem como as re-existências das formas de vida contra-coloniais, alternas às relações de produção e consumo do Estado-Capital. Sim, é sobre justiça epistêmica e antirracismo!

Nos interessamos pelas formas de fazer pesquisa nos diversos campos dos saberes de povos e comunidades tradicionais, na arte contemporânea, nas ciências humanas, nos movimentos sociais, acreditando na potência dos diálogos e traduções intermundos entre esses saberes e fazeres.

Levamos a sério os saberes das pessoas e coletivos em suas bases mesmas (não como ilustração de teorias acadêmicas ou algo a ser legitimado por elas). Interessam-nos saberes do corpo, de si, do comum, de um fazer tecnológico e/ou técnico, filosófico, histórico, artístico, científico.